HISTÓRIA DA FILOSOFIA IV - NEAD UFSJ FILOSOFIA TAREFA 2

 

HUSSERL, HEIDEGGER E WITTGENSTEIN NA PERSPECTIVA DE STEGMÜLLER

 

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho analisa a obra A Filosofia Contemporânea: Introdução Crítica, de Wolfgang Stegmüller, com ênfase nas contribuições de Edmund Husserl, Martin Heidegger e Ludwig Wittgenstein. O objetivo principal é compreender como Stegmüller interpreta as respostas desses filósofos à crise da razão e à dissolução do sentido na cultura moderna.

A estrutura do estudo divide-se em quatro partes: a primeira examina a Fenomenologia Transcendental de Husserl; a segunda, a Ontologia Fundamental de Heidegger; a terceira, a crítica linguística de Wittgenstein; e a quarta apresenta uma síntese final que integra as contribuições dos três pensadores.

A análise evidencia que, apesar das diferenças metodológicas e temáticas, todos enfrentam o mesmo desafio: a impossibilidade de fundamentar a filosofia em bases absolutas e seguras. Stegmüller identifica nesse movimento um deslocamento central da filosofia do século XX — da busca por fundamentos positivos para a reflexão crítica sobre os limites da linguagem, da existência e da racionalidade.

2. Fenomenologia Transcendental de Husserl

      Husserl é interpretado por Stegmüller como o herdeiro mais direto do projeto transcendental kantiano, buscando, contudo, a sua radicalização metódica. Sua Fenomenologia surge como a tentativa de estabelecer a filosofia como uma ciência rigorosa, capaz de garantir o fundamento do saber. O método central é o retorno guiado pelo imperativo Zur Sache selbst (às coisas mesmas), alcançado através da epoché (suspensão do juízo sobre a existência do mundo exterior).

A epistemologia husserliana assenta-se na descrição rigorosa da intencionalidade da consciência, onde a verdade é assegurada pela evidência (Evidenz) fenomenológica – a doação intuitiva da essência. Contudo, em suas obras tardias, como “A Crise das Ciências Europeias”, Husserl reconhece a decadência cultural como uma perda do sentido originário da racionalidade, resultante do esquecimento do Mundo da Vida (Lebenswelt), o solo pré-teórico de toda a experiência.

3. Ontologia Fundamental de Heidegger

A filosofia de Heidegger é caracterizada por Stegmüller como uma ruptura radical com a tradição metafísica e epistemológica, promovendo a virada ontológica. O cerne de sua investigação é a questão fundamental do Ser (Sein), que foi esquecida pela tradição ocidental (Seinsvergessenheit).

Em vez de uma epistemologia, Heidegger propõe uma Analítica Existencial, que toma o Ser-aí (Dasein) – o ente cuja própria existência envolve a compreensão do Ser – como ponto de partida. O conhecimento, portanto, não é primariamente uma operação teórica, mas um modo fundamental de ser-no-mundo. A crise moderna e a dominação da técnica são interpretadas em termos ontológicos: são manifestações do niilismo e do esquecimento do Ser, onde os entes são reduzidos a meros recursos disponíveis. A tarefa de Heidegger é, portanto, a reconstrução da Ontologia Fundamental.

4. A crítica linguística de Wittgenstein

Wittgenstein representa, na análise de Stegmüller, a ruptura mais acentuada com as pretensões metafísicas, operando o deslocamento para a linguagem. Sua filosofia é entendida como uma atividade de clarificação, cujo objetivo é dissolver os pseudoproblemas filosóficos gerados pelo uso incorreto ou confuso da linguagem.

No Tractatus Logico-Philosophicus, a filosofia é reduzida à lógica, buscando delimitar as fronteiras do pensável e do dizível. Na fase tardia (Investigações Filosóficas), essa análise se expande para o conceito de Jogos de Linguagem, mostrando que o sentido das palavras e conceitos é determinado pelo seu uso em contextos práticos e sociais específicos. Desse modo, a metafísica é desqualificada por não ser falsa, mas por ser o produto de confusões gramaticais. A função da filosofia, para Wittgenstein, é terapêutica e crítica, não fundante.

5. Síntese: O Deslocamento da Filosofia (Conclusão)

        A análise de Stegmüller evidencia que Husserl, Heidegger e Wittgenstein, embora sigam caminhos distintos, enfrentam a mesma tensão fundamental da filosofia contemporânea: a busca de sentido frente à impossibilidade de uma fundamentação última e universalmente válida. Este desafio, identificado pelo autor, reflete a crise da razão e da cultura herdada da modernidade, marcada pelo questionamento dos fundamentos metafísicos tradicionais e pelo reconhecimento dos limites do conhecimento humano.

         Husserl, com sua Fenomenologia Transcendental, procura restabelecer a certeza da experiência consciente através da Evidenz, buscando um conhecimento rigoroso e sistemático. A sua proposta não se limita a uma descrição da consciência; ela representa um esforço de reconectar a filosofia com os fundamentos da racionalidade, oferecendo um ponto de apoio seguro em meio à fragmentação da ciência e da cultura moderna. No entanto, essa tentativa também revela as limitações de qualquer projeto de fundamentação absoluta, evidenciando que a consciência, embora estruturante, não pode sustentar sozinho a totalidade do sentido.

        Heidegger, por sua vez, desloca o foco do conhecimento para o Ser, propondo uma Ontologia Fundamental que retoma a questão esquecida do Sein como horizonte de toda inquirição. A reflexão heideggeriana evidencia que a crise moderna não é apenas epistemológica, mas existencial: a técnica, o niilismo e a perda do sentido são sintomas de um esquecimento ontológico profundo. Assim, a filosofia deixa de buscar fundamentos externos e passa a investigar a condição de possibilidade do próprio ser-no-mundo, estabelecendo um critério de análise radicalmente distinto daquele husserliano.

        Wittgenstein representa uma virada ainda mais radical ao deslocar a reflexão para a linguagem. Sua crítica não busca restaurar fundamentos nem explorar o Ser, mas purificar o pensamento das confusões metafísicas que surgem do uso inadequado das palavras. Tanto no Tractatus quanto nas Investigações Filosóficas, Wittgenstein demonstra que muitos problemas filosóficos são produtos de mal-entendidos linguísticos, mostrando que o sentido depende do contexto social e pragmático. Sua abordagem evidencia que o desafio contemporâneo da filosofia está diretamente ligado às limitações estruturais da linguagem como meio de expressão do pensamento.

       Embora distintos, os três pensadores participam de um mesmo movimento identificado por Stegmüller como característico da filosofia do século XX: o deslocamento da filosofia de um saber fundante, preocupado com a certeza absoluta, para uma reflexão crítica sobre os próprios limites da razão, da linguagem e da existência. Husserl, Heidegger e Wittgenstein, cada um à sua maneira, revelam que a filosofia contemporânea não se define mais por respostas definitivas, mas pela capacidade de problematizar, questionar e esclarecer as condições de possibilidade do conhecimento e do sentido humano. Esse deslocamento, que atravessa epistemologia, ontologia e linguagem, constitui o núcleo do diagnóstico stegmülleriano e permite compreender a filosofia contemporânea como um empreendimento que reconhece a finitude e a historicidade do pensamento humano.

REFERÊNCIA

STEGMÜLLER, Wolfgang. A filosofia contemporânea: introdução crítica. Trad. Adaury Fiorotti e Edwino A. Royer (et al.). São Paulo: EPU / EDUSP, 1977.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Trad. C. K. Ogden. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

https://pt.slideshare.net/slideshow/afilosofiacontemporaneawolfgangstegmullerpdf/57014210, acessado 20/10/2025

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